segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Estrada para Saquarema


Muitas pessoas não concordam com a minha opinião quando a exponho. Passo por chato, moralista ou conservador. Na verdade, sinto-me censurado pelos pertencentes à geração atual, como os amigos da minha filha, quando os recebo na minha casa nas férias de verão
Tenho cinquenta anos e há vinte e cinco estou na polícia. Felizmente, estou há vinte e três anos trabalhando aqui, na polícia de Saquarema. Meu pai foi policial, e ainda estava na ativa quando eu entrei para a corporação, e assim continuou por mais uns cinco anos. Um velho amigo de infãncia também tornou-se policial na mesma época que eu. Quando começamos a servir à justiça – assim se descrevia o nosso trabalho – nos orgulhávamos bastante do que faziamos. Ser policial naquele tempo era algo realmente importante. Seus vizinhos te respeitavam, os comerciantes eram mais gentis, sua presença transmitia segurança à todos. Até os caras que vinham pedir para namorar com a sua filha o faziam com coração na boca.
Hoje em dia não é mais assim. Não se fala mais “sim, senhor” ou “sim, senhora”. Parece que agora são novos tempos.
Há dois meses atrás – estamos em março – a cidade estava ficando cheia de turistas. É o que se chama alta temporada. Jovens, casais, crianças, velhos, todo tipo de pessoa vem pra cá, seja para uma pousada ou para uma casa de veraneio. As estradas não estavam bem congestionadas, mas havia mais carros na auto-estrada que liga Niterói à Saquarema pela serra do que em toda a pequena Maricá.
Jesus Cristo, como há trabalho nessa época para os policiais.
Eu estava no banco do carona e o Santos estava na direção da patamo. Era uma velha Caravan 77. Um calhambeque, para falar a verdade. Não sei como o comando geral não tem vergonha de nos deixar andar com essas latas-velhas. A direção estava dura e Santos sempre soltava um protesto na hora que a caixa de marchas cismava de arranhar. Fazia um frio dos diabos, por mais que estivéssemos em pleno verão, e eu estava bem agasalhado, com um casaco comprido e felpudo.
Recebemos um rádio nos avisando de um briga numa cantina no alto da serra. Parecia que as coisas não estavam nada bem lá e a discussão havia terminado em bala, com dois mortos no final. O atirador fugiu pela mata. Parece até mentira, mas é verdade. Ele pulou uma cerca e embrenhou-se. Quando chegamos lá e vimos os defuntos, me deu até pena. Uma moça muito bonita, de cabelos dourados e olhos azuis e um rapaz novo também, estirados na calçada da lanchonete. Demoramos uns dez minutos para chegar até lá – por sorte estávamos perto, pelas alturas de Inoã – tempo o suficiente para o sujeito adentrar algumas centenas de metros pela mata fechada. O velho Hoffmann – um entre as dúzias de imigrantes europeus que tinham alguma espécie de negócio gastronômico na beira da estrada – garantiu-me que o criminoso não deveria ter ido longe, porque a serra era muito inclinada e apenas por uma trilha era possível chegar à algum lugar decente.
Mandei Santos ficar de olho na estrada enquanto eu ia dar uma olhada na mata. Com a lanterna que havia dentro do carro, peguei o começo do rastro do sujeito e tentei segui-lo como pude. Um tanto difícil, para não dizer impossível. Estava muito escuro e molhado pelo orvalho. Tomei o cuidado de manter a luz afastada do meu corpo, um pouco no alto, para não denunciar minha posição e facilitar um tiro.
Eu tinha um palpite sobre quem era o fugitivo. A descrição feita pelo dono da lanchonete colaborava para meus pensamentos de desconfiança. Um sujeito “moreno, de cabelos escorridos e com uma cicatriz na testa” me fez pensar logo no filho do Limeirinha. O rapaz era apenas o desfecho de uma tragédia maior. Jesus, vou ter que contar a droga da história toda.
Faz mais ou menos dez anos que eu recebi uma chamada no rádio solicitando a minha presença na pequena Jaconé. Curiosamente fazia o mesmo frio desgraçado que fez na ocasião do crime na lanchonete. Tratava-se, igualmente, de uma briga, só que dessa não num estabelecimento de beira de estrada, com aparência limpa e clientela composta pela classe média veranista. Tudo aconteceu numa birosca dessas que são construídas atreladas a casa das pessoas. Apenas um ponto para vender cerveja e cachaça. Quando cheguei lá, através de uma estradinha de terra, deparei-me com o Limeirinha segurando uma faca toda ensanguentada, sentado no balcão da birosca, bebendo uma dose de cachaça. É por isso que odeio essas biroscas. São como pequenos inferninhos propagadores de tragédias e miséria. Prostituição, bebedeira, traição, ruindade, tudo tinha seu espaço reservado nesses lugares. Se alguém abre uma droga de botequim em uma vila de pescadores miseráveis, o pouco dinheiro daquele povo vai escoar pelo ralo, levado pelo alcool. Óbvio. A faca na mão do Limeirinha pingava sangue no chão de terra batida, formando uma pequena poça. Mandei que ele largasse a faca e lhe dei voz de prisão. Ele estava com a cara cheia de cana e me olhou com os olhos vermelhos, com ar de deboche – ou de bêbado mesmo, não sei dizer. Chamei-o cerca de três vezes, quando finalmente decidi agir fisicamente. Ele tentou me acertar com a faca, mas estava tão embriagado que cambaleou e foi para o outro lado. Nesse momento surgiu outro homem com um grande corte no braço e com um revolver na outra mão e atirou em minha direção, mas acertou o pobre diabo do Limeirinha. Eu atirei no homem e ele voou um bocado de distância com o impacto da minha arma. Logo começaram a aparecer os moradores da vila, e os homens que haviam assistido à cena de longe vinham me fazer perguntas. Tratei de dispensar todos para suas casas e chamar outra viatura pelo rádio. Maldito dia para meu parceiro ficar doente e me deixar sozinho.
Após a morte do Limeirinha, a vida de sua família foi por água abaixo. Sua mulher começou a trabalhar como empregada na casa de uns ricaços que moravam em Saquarema; mas não durou muito e acabou morrendo, de velhice misturada com doença. Os filhos – eram cinco – foram de mal a pior. Os que não trabalhavam tiveram que largar a escola e passar a pegar no batente. Uma das meninas tratou de arrumar logo um marido que a sustentasse, mas tudo na pressa sabe, dava pra notar que era mais por necessidade que por um movimento natural das coisas ali naquele lugar. A outra mudou-se para Niterói e, por Deus, o Santos disse que um amigo lhe contou tê-la visto num prostíbulo desses perto da zona portuária. Um dos meninos resolveu fugir de casa, depois de um tempo. Ele tinha seis anos na época e eu não consigo imaginar onde que uma criança com essa idade vai conseguir se enfiar. Eu sinceramente não consigo pensar em qual tenha sido o destino dele, mas toda vez que vou visitar minha filha no Rio de Janeiro e passo pelo Centro da cidade, imagino que ele esteja no meio daquele bando de pivetes que ficam ali pelo entorno da Candelária e nas ruas em volta. O outro trabalha num mercadinho e virou obreiro de uma pequena igreja pentecostal que abriu por ali, na beira da estrada. Pelo menos está ganhando dinheiro aos domingos. O último vivia de bicos, por aí. As vezes encontrava-o trabalhando em alguma companhia de mudanças, carregando sofás, outras vezes encontrava-o vendendo cerveja no carnaval da Região dos Lagos. Até que há uns três anos atrás eu fiquei sabendo que outros policias acharam-no morto, boiando na lagoa. Uma família de turistas que estava pescando por ali o encontrou, com peixes mordendo sua carne. Irônico: alguém que cresceu comendo peixe morrer e acabar dessa maneira.
Soube que nos últimos dois anos o que trabalhava no mercadinho e era obreiro da igreja largou o emprego e a religião e estava se envolvendo com drogas. Não sei dizer a que ponto, se apenas para consumo ou se estava vendendo, traficando. Eu acho que ele também vendia. Um sujeito desesperado e pobre e com um histórico de vida como o dele está suscetível a se meter com drogas. Deus, onde as coisas estavam indo parar.
Era exatamente ele que eu tinha em mente agora. Tinha parado de andar na mata e estava perto de um grande tronco de árvore, dando uma boa olhada na clareira que havia à minha frente e atrás da grande lanchonete de beira de estrada. Santos estava com o carro lá na frente, podia ver as lanternas traseiras a uns quinhentos metros de distância.
Ouvi um tiro, depois outro. Sai correndo, quase tropeçando diversas vezes, em direção ao carro. O chapéu caiu da minha cabeça enquanto batia em disparada na direção da patamo. Quando cheguei lá, esbaforido, vi a vidraça lateral do carro rachada e o braço do Santos ferido. Aproximei-me, aflito para saber se ele estava bem, mas ele me acalmou, dizendo que havia sido apenas de raspão. Caído em cima de uma pedra eu via o sujeito responsável, pelos dois mortos lá na lanchonete. Quando cheguei perto, seu rosto foi brevemente iluminado pela ambulância que passou por trás de nós em direção à lanchonete, para atender, tardiamente, o casal de vítimas.
Acertei. Era o último da família do Limeirinha. Não sabia porque estava ali, assaltando – nem porque tinha sido tão burro de fazê-lo num lugar movimentado como aquela lanchonete. Ele era mais um que morria sem que soubesse exatamente a causa e certamente o boletim de ocorrência seria esquecido depois de um tempo. Não havia o que fazer e, sinceramente, quem gastaria seu tempo investigando o histórico de um pobre diabo como aquele, sem nenhuma posse? São tempos conturbados esses, onde as coisas estão indo parar em lugares os quais não se sabe dar nem ao menos a descrição.

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