terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Banco da Praça


Estava sentado na praça Saens Peña, na Tijuca. Pela minha frente perfilavam-se todos os tipos – que pelo menos eu conhecia – da variedade humana carioca. Crianças, adolescentes, adultos, idosos. Trabalhadores, estudantes, vagabundos e aposentados. Pretos, brancos, vermelhos e pardos. Homens e mulheres. A tarde já era adiantada e logo iria anoitecer. O ronco do trânsito na Conde de Bonfim aumentava conforme o número de veículos naquela via crescia. Enquanto a cidade corria frenética em direção ao fim de mais um dia, eu tinha escolhido sentar-me naquela praça para ficar um pouco à toa, observando a própria urbe em sua louca doença, cujos surtos sintomáticos eram sentidos pontualmente às sete da manhã, ao meio-dia e às seis e meia da noite. Sim, era o horário do rush.
Do outro lado daquele simpático lago localizado no meio da praça, eu via uma cena curiosa. Em certo banco, estavam sentadas duas senhoras, com cara de mãe e filha. Pareciam estar conversando sobre coisas amenas, tanto pela leveza dos gestos da mais nova, que transmitiam calma e paciência, quanto pelas palavras ditas vagarosa e ponderadamente pela mais velha. Era uma conversa de mestre e aprendiz. No entanto, apesar das duas estarem parecendo desfrutar de uma comodidade quase doméstica, era possível notar o claro estorvo que sentiam por um rapaz, que maleducadamente apoiava seu pé em cima do assento do banco. Largava-se numa liberdade de movimentos que o permitia, sem consideração alguma com normas e regras de conduta, sentar-se nas costas do banco. Eu mesmo senti-me incomodado com aquela situação.
Mas eis que surge, metido em sua farda bege, com o cacetete na cintura, o guarda municipal. Definitivamente, o que transmitia alguma imponência em sua figura era a farda e a arma branca que portava, pois tratava-se de um homem muito magro, com os traços do rosto bem ossudos. A boina e os óculos escuros escondiam os cabelos brancos e os olhos perturbados pela poeira do trânsito e pela luz do sol de todo o dia. Ele, com os braços cruzados atrás de si, abordou o cidadão. Com educação, porém sem perder a postura de autoridade pública, pediu ao rapaz que retirasse o pé do assento. O jovem ainda teve a ousadia de ponderar – ato que irritou profundamente o guarda, que pediu mais uma vez, sendo esta a última. Eu era capaz de ver os vapores da raiva saindo do pescoço daquele homem, que embora com vontade de baixar a porrada no indivíduo, ainda se prendia a atitudes protocolares, que norteavam seu comportamento de representante da ordem. Quando finalmente a situação se normalizou, o guarda pediu desculpa às senhoras e virou as costas. Tomou o rumo da feirinha que se ficava numa das bordas da praça. O rapaz olhava de canto de olho para o movimento do guarda. Sentia-se incomodado por ter que obedecer a alguém que nunca havia visto na vida. Pulsava dentro de sua cabeça uma vontade de desobedecer e fazer o que bem entender.
Observei essa cena com muita curiosidade e satisfação. Sentia-me como se estivesse num camarote, assistindo o espetáculo cotidiano bem de perto.
O guarda parou em frente a uma barraca, onde uma mulher vendia seus artesanatos. Eram essas caixinhas enfeitadas, com todos os detalhes necessários para você guardar qualquer coisa. O senhor representante do Estado conversava, sorridente, com a vendedora. Notava naquela conversa um quê de flerte. Da parte dos dois. O guarda soltava sorrisos e gargalhadas e estava de braços cruzados, como que para exibir algum físico ou rigidez masculina. A mulher sorria também e jogava os cabelos para lá e para cá. Era bonita sim, hei de concordar com o gosto do tal guardinha.
As amareladas luzes dos postes já estavam acesas. O chafariz do lago tinha parado de jorrar água. Via-se mais e mais pessoas cruzando a praça. A escadaria da estação de metrô engolia e vomitava gente, como se fosse um monstro esfomeado.
No banco da praça, as senhoras já não conversavam. A mais nova agora mexia na bolsa (com cuidado, por causa dos ladrões). O rapaz estava sentado nas costas do banco e já preparava-se a um tempo para voltar a apoiar os pés no assento. Estava esperando o guarda sumir de vista. Assim o fez. As duas senhoras repetiram a cara de desgosto. Ele parecia estar satisfetio por estar incomodando.
De algum lugar surge então um grito. Eu não me lembro de onde ele surgiu, mas sei que quando apareceu, o jovem caiu no chão com o susto. Era um negão de quase dois metros de altura, com a farda da guarda municipal e cacetete na mão, de maneira semelhante ao seu companheiro de corporação, que tinha chegado aos berros na orelha do infeliz. Deu pra ver os olhos injetados do guarda de onde eu estava! Ao longe, veio o primeiro guarda, correndo, deixando a sua enaltecida artesã de lado e indo conferir a confusão armada pelo seu colega. Estatelei-me com aquela cena. Tinha muita vontade de rir, mas estava perplexo com a face de desespero que tomou a fisionomia do rapaz, que tentava se explicar desesperadamente. Eu conseguia ouvir algumas das palavras do segundo guarda, que eram claramente de censura à atitude do transgressor. Provavelmente quando o primeiro guarda chegou novamente ao banco, ele deve ter dito que já o advertira uma vez. Dava pra deduzir isso das palavras soltas que chegavam à mim, atravessando a distância. O jovem num instante se recompôs e tomou o seu rumo, indo embora daquele lugar. O segundo guarda dirigiu palavras de desculpa e conforto às duas senhoras que estavam sentadas no banco. Mas via-se que elas estavam satisfeitas com o desfecho da situação.
Meu telefone celular tocou. Atendi mas demorei a descolar minha atenção e minha mente da situação que assistira. Desviei completamente os olhos e tomei o caminho do ponto de ônibus, dando melhor atenção à quem me ligou.

Um comentário:

Mateus disse...

Kra, gostei mt do texto...sou fã das experiências diárias, das experiências do olhar...Me lembrou A. Caeiro quando dizia:
"E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."
Parabéns, rapaz...esperando mais posts! =)