segunda-feira, 20 de julho de 2009

Se essa rua fosse minha...

Fábio estava sentado na escadinha da entrada de sua casa desde as oito da manhã. Em pleno período de férias, o pequeno de oito anos tirou ânimo não se sabe de onde para acordar cedo e montar guarda ali, na frente das roseiras de seu quintal. Estava do mesmo jeito que tinha saído da cama: cabelo todo desgrenhado e pijama amassado. Os bigodes de leite ficavam por conta do copo que sua mãe lhe trouxe. Naquele lugar poderia ver a hora em que seu amigo iria aparecer no portão da casa em frente. Mas alguma coisa estava errada hoje, pois ele estava demorando muito. O Gabriel era um cara bem elétrico, de acordar cedo e ir pra calçada com a bola de futebol na mão, esperando as outras crianças aparecerem para correr todo mundo pro campinho de terra no fim da rua. Era também ótimo em convencer o Adílson, um ruivinho que morava no casarão da esquina, a levar todo mundo para a sua casa pra jogar aquele videogame que só ele tinha, de tão moderno que era. O Adílson tinha medo que fizessem bagunça na casa dele, derrubassem algum vaso, quebrassem alguma coisa. Tudo na casa dele era muito caro, se alguma coisa quebrasse, já era.
Fábio então ouviu o claque da portaria do prédio ao lado da sua casa. Era um prediozinho verde, de quatro andares, muito bonitinho. Lá havia um pátio muito bom para brincar e volta e meia se festejava o aniversário de alguém ali. Apareceu a Martinha, uma das meninas que andava com todo o bando da rua. Fábio a viu, carregando sua bicicleta roxa com fitas no guidão, vindo do lado esquerdo da calçada. Ela era muito bonitinha, com uns cabelões pretos lisinhos, que sempre deixavam Fábio com um sorriso espremido entre as bochechas, bem discreto, de tanta alegria que ele sentia quando via a menina.
- Quedê o Gabriel, Fabinho?
- Num sei, ainda não saiu. Tô esperando ele desde cedo – enquanto falava, o menino levantou e abriu o portãozinho de sua casa. Sentou no meio fio do lado de Martinha e ficaram os dois lá, olhando para as janelas da casa do amigo ausente. Ambos estavam calados, já que não precisavam dizer nada para expressar sua chateação. Afinal, hoje era o dia que a turma tinha planejado cada hora, cada minuto. Jogariam queimado pela manhã, depois do almoço brincariam de banco imobiliário, depois um pouco de videogame na casa do Adílson e lá para as quatro da tarde não sabiam bem o que iriam fazer, mas tinham certeza de que todos estariam na rua, pelas calçadas e árvores, a pular e brincar. E apesar de todo esse planejamento, parece que alguma coisa já tinha começado errado.
Pouco a pouco, conforme avançavam as horas da manhã começaram a aparecer as outras crianças da rua: o Joca, um negrinho que morava para lá da esquina, em cima da padaria; Parafuso, o asmático que não sabia nadar e sempre arbitrava os jogos de bola da galera; a Juliana, uma loirinha muito amiga da Martinha, filha de um pessoal do sul que tinha se mudado para a cidade há um ano atrás; o Pedro, um moleque encrenqueiro que só pensava em jogar futebol; o Márcio, um dos mais velhos e maiores, caladão e com um sorriso encantador. Este último era uma das crianças mais requisitadas no grupo. Quando dava briga, todo mundo corria para trás dele.
Todo mundo sentado na calçada do Fábio esperando. O menino estava sentindo-se agoniado, sem controle nenhum do que fazia. Mexia as pernas, como se quisesse tomar uma atitude em relação aquilo tudo, para por fim na situação e finalmente trazer o moleque para fora. Seu coração estava disparado. Nem uma janela aberta, nem um barulhinho saía da casa do Gabriel. Impaciente, o garoto levantou e atravessou a rua. Deu um berro na frente do portãozinho.
- Gabrieuooô! - assim mesmo, carregando bastante no “ô”.
Chamou duas vezes. Martinha veio para o seu lado, para ver se alguém aparecia na janela. Então a mãe do Gabriel abriu a porta de frente e apareceu para as crianças. Ela estava com umas olheiras e muito pálida, como se não tivesse dormido. A gola e as mangas de seu pijama estavam molhados. Ela estava com uma cara muito triste, o que deixou as crianças um tanto quanto assustadas.
- Crianças, o Gabriel morreu.
Fábio só lembra de que tudo à sua volta escureceu e seu coração parecia estar dando cambalhotas de tanta dor. Era uma sensação horrível, que ele não queria ter sentido nem por uma maleta cheia de dinheiro. Não olhava mais para o rosto de nenhuma das outras crianças e nem ouvia claramente as vozes delas, todas se misturavam numa confusão só. Balbuciou inúmeras vezes o nome do amigo, enquanto seu coração parecia doer cada vez mais.
Repentinamente, sentiu uns tapinhas no seu braço direito e do meio da confusão de vozes, emergiu a voz da senhora sua mãe.
- Tão te chamando ai no portão. Levanta.
Fábio pulou assustado da cama e atravessou o corredor aos pulos, saltando por cima da mesinha de centro da sala enquanto ouvia a voz de Gabriel vindo lá de fora.
- Fabiooô! - o mesmo “ô” carregado.
Abriu a porta da sala e viu aquele bando de crianças na frente de sua casa. O Gabriel estava com a cabeça por cima do portão e a Martinha estava lá atrás, em sua bicicleta roxa. Então todo mundo gritou:
- Poxa, até que enfim!
Tudo não passou de um pesadelo, que foi embora junto com a noite. O dia amanheceu feliz e o sorriso de Fábio iluminou toda a rua, fazendo par com o brilho do sol.

Um comentário:

Danielle disse...

Uffa!!!

Acredite: mes fez prender a respiração. Mas um aliviante respirar no final... :)

Bela, tão singela...Cor de infância, jeito de infância, angústia de infância, mas medo - de não tão infância assim.

Foi bom o suspiro final. Feliz.
Grande abraço.