sábado, 9 de maio de 2009

A palavra é chuva.


Desaba homogeneamente sobre a cidade uma cinza cortina de água, molhando tudo e tornando as pessoas mais cautelosas, mais frias. Há na chuva um feitiço que deixa tudo um pouco mágico um pouco mais depressivo. A multidão de guardachuvas negros que caminham pela grande avenida central parece-me até bela. Os carros quando passam batidos pelo asfalto, fazem aquele chiado molhado que vai se perdendo na distância.
É nesse cenário que caminho. É nesse cenário que penso.
Penso nas vezes em que te encontrei embaixo da mesma marquise, às sete da noite, na saída do trabalho, quando íamos andar um pouco para nos conhecermos melhor. Penso também nas vezes em que sob a mesmo céu chuvoso e relampejante, eu fui ao seu apartamento para desejar-te feliz aniversário. Sob o mesmo céu também caminhamos à beira da meia noite, voltando de uma irresponsável sessão de cinema durante a semana. Lembrei, com um leve sorriso estampado no rosto, das vezes em que terminavamos a noite juntos.
Caminho agora pela calçada direita da avenida. Passo por todos os lugares que gostávamos. A livraria no subsolo daquele edifício, a cantina italiana, o grande teatro municipal, a imensa praça. Em todos estes lugares está a nossa marca, que imprimimos com sentimento. Mas agora quem nela caminha e imprime novos sentimentos sou eu, sozinho. Faço nesse momento uma leitura única de tudo o que passamos e vejo o quanto necessito reaver esses lugares com outras vistas.
Penso bem e tomo por conclusão que tudo está ficando melhor para mim, pois vejo que depois do fim as coisas estão mudando. Passando por todos estes lugares e lembrando de todas essas ocasiões, esta é a primeira vez em que a chuva não compartilha meu rosto com as lágrimas. De meus olhos não cai mais uma gota e sinto que você vai-se embora, junto com toda essa água que corre no meio fio em direção aos bueiros.

2 comentários:

Curupira da cidade grande. disse...

''Lembrei, com um leve sorriso estampado no rosto, das vezes em que terminavamos a noite juntos.''

com sorrisos a chuva ganha forma de sol. E as nuvens, agora brancas, brincam de modelar nossa imaginação sem vergonha de parecer ridículo.

(ainda quero ver os versos daquele por do sol no Gragoatá)

ass. Walter

Renata Machado Seti disse...

A água limpa tudo por onde passa, é renovação.O rio continua a seguir seu curso mesmo cheio de pedras no caminho.