quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Uma pequena crônica para quebrar o gelo.


O homem do outro lado da faixa amarela segue sua vida. Não olha para o rosto dos outros, apenas concentra-se em ficar escondido atrás de seus óculos, numa mudez que cala até a expressão de seus olhos, ferramenta que teria se tornado uma última chance de comunicação com o mundo exterior.
Tem na mão um envelope. Contas a pagar, semelhantes a cartas de alforria, só que a escravidão é mensal, bem como a abolição (mediante boleto bancário). Tem no bolso o dinheiro contado. Faz mil e uma estripulias para continuar vivendo conforme sua classe social; sente o cheiro putrefato de agiotas e miséria rondar-lhe as narinas. Madruga, estuda, trabalha e, à noite, quase no fim, algumas vezes ama.
Alterna o peso entre as pernas, porque essas filas de banco cansam, não só o corpo, mas também a mente, irritando-a com sons mecânicos e eletrônicos que saem dos caixas. Ajeita o chapéu na cabeça, o óculos no rosto e estica a já maltratada coluna. Passa a mão pelo rosto junto comigo, assim como balança o corpo pendularmente para o tempo passar, igual a mim. Encara-me com o mesmo olhar inquisidor que eu o encaro. Entretanto, o homem, ó céus, sou eu e o que está do outro lado da faixa amarela nada mais é que um espelho decorativo.

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