terça-feira, 21 de setembro de 2010

Fruto de uma Quimera Noturna

Acreditamos não haver conexão entre nós e a multidão humana que nos cerca. Atribuímo-la o título de anônima por acreditarmos que estamos distantes daqueles que sentam ao nosso lados nos ônibus, que nos servem refeições na rua ou ainda dos que nos pedem licença por um momento. São pessoas pretas, vermelhas, brancas (ou seriam morenas?), altas, baixas, mas acima de tudo são pessoas sem nome, desconhecidas. Existe um espaço não-físico entre nós e elas composto de ignorância e pré-conceito. A observação e o entendimento deste espaço é um dos maiores engenhos a serem empreendidos pelo intelecto humano – de sorte que até hoje tal empresa não foi tomada, pois se assim fosse feito, não estariamos no ponto que chegamos. Uma boa reflexão acerca da natureza desse espaço nos explicaria, à semelhança do que é feito em outros saberes, como na História, onde é usado para explicar as pirâmides sociais, e na Física Experimental, onde decifra a natureza da luz, que ele é metafóricamente um prisma. Tanto na primeira como no primeiro saber, essa figura geométrica denuncia a existência das diferenças. Talvez sejam nessas diferenças e no afastamento que elas causam que reside a fé na autonomia de nossas ações e na inocência de nossas vontades. A convicção de isolamento nos faz viver uma solidão inconsciente e irresponsável.
Torna-se quase um exame de consciência refletirmos sobre a ligação que existe entre cada nós e um outro ser humano, seja lá qual for a distância que acreditamos estar ele de nós.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Precisamos de Choques

Estou enojado de políticos. Nesse exato momento de todos, pois não consigo ser racional o suficiente para entender que há alguns nos quais posso votar. Mas de uma forma geral, estou achando tudo um grande chiqueiro de porcos. Coitados dos porcos, são muito legais para serem comparados a essa corja que nos governa.
A violência, e sua mãe, a corrupção, salta aos olhos dos fluminenses aonde quer que eles olhem, tanto para cidade maravilhosa quanto para os recantos antes tranquilos do nosso estado. Tanto nas favelas quanto no asfalto. Estamos todos imersos nesse espírito maldito que assombra o Rio de Janeiro, queiramos ou não, colaboremos ou não.
Mas vou falar agora da principal motivação do meu ato de vir aqui fazer uma postagem. A política do Rio de Janeiro em relação à segurança é algo que está no nível do espetacular. Não por sua eficiência, com as UPPs pacificando as favelas existentes nas áreas nobres da cidade, principalmente na Zona Sul e áreas mais centrais, mas sim pela faustuosidade com que se recobre essas unidades de polícia pacificadora. É um show de ineficiência a longo prazo, como se verá. Aplaude-se atitude do comando da polícia de erradicar o crime em algumas comunidades, mas não raciocina-se para onde esse crime vai. Ao instalar uma UPP, não se erradica o crime que ali estava instalado. Os bandidos que ali estavam fogem, apressadamente para outras regiões da metrópole, como a Zona Norte, a baixada fluminense e mesmo o outro lado da Baía de Guanabara, como fiquei sabendo hoje no meu curso de inglês. Curiosamente são áreas onde provalvemente não haverão eventos da futura Copa do Mundo e das Olimpiadas. Porque as operações da polícia não se dão na raíz do tráfico de drogas, que é nas margens da Av. Brasil e Dutra e nos pontos próximo à Baía de Guanabara, em suma, na Zona Norte? Porque trata-se de um empreendimento para inglês ver. Literalmente(mas não tanto assim).
Fico pensando à que nivel chega a rede de relacionamentos existente entre o alto escalão da política no Rio de Janeiro e os traficantes de drogas, milicianos e outras variantes de foras-da-lei.
Quando falamos de violência, pelo menos aqui no Rio, a primeira coisa que pensamos são em lugares pobres, favelas. E quando falamos em corrupção, a primeira coisa que pensamos é nos lugares de poder, como por exemplo, na Prefeitura ou no Palácio Tiradentes. Sim, de certa forma estamos corretos, no entanto, não conseguimos perceber como essa corrupção escorre como um caldo negro por todos as vias de nossa sociedade. Como existe corrupção e falta de ética em inumeros de nossos gestos, que cometemos sem perceber. Não percebemos como somos violentos com o próximo ao negar seu acesso a direitos básicos, como educação, alimento, saúde e moradia decente. Estamos violentando sua existência. O que deve acontecer para que tenhamos ojeriza à inconsequência de nossas e tomemos uma titude para que isso tudo mude? Quando vamos realmente valorizar nossos votos, mesmo que tenhamos que anulá-los nas urnas? Quando vamos perceber que está tudo em nossas mãos, em nossos atos e palavras?

Mais do que choques de ordem, precisamos de um choque moral, outro de ética e mais um de consciência, todos na cervical.

sábado, 17 de julho de 2010

Meses

Sim, são muitos meses que não posto aqui. Aliás, que coisinha batida essa de começar a minha postagem dizendo que "tem muito tempo que não faço isso". Não fiz porque não houve necessidade. Não houve jorro de palavras pela ponta de meus dedos. Minha cabeça ficou vazia por meses? Acho que não.

O que ocorreu é que fiquei distraído. Me distraí com contas, aluguéis, disciplinas da faculdade, doenças, noites em claro, filmes, pessoas. Tudo isso me tirou o foco. Minha objetividade se tornou um caleidoscópio. Dividi minhas forças tolamente entre várias responsabilidades, procurando mantê-las todas equilibradas, como um malabarista.

Mas minha obra, a grande obra, não está necessariamente perdida. Apenas tenho que reunir as ferramentas, que estão espalhadas pelo chão - algumas enferrujadas - e arrumá-las dentro de uma caixa. Depois de fazer isso me sentirei em condições do continuar.

Tijolo por tijolo.

domingo, 15 de novembro de 2009

Wilderness


Ainda não tenho uma tradução para a palavra que dá título a essa postagem, infelizmente. Mas ela é poderosa. Wilderness é algo que está intrincado na medula do imaginário mítico norte-americano. Certamente uma palavra derivada de wild. Define lugares selvagens, preferencialmente intocados pelo homem, onde apenas as coisas de ordem natural reinam. Lá não existem estradas, redes elétricas, tubulações, infraestrutura alguma. São áreas que atualmente podem ser encontradas preservadas em parques nacionais e reservas, nos mais variados países, sendo consideradas importantes para a conservação da diversidade da fauna e flora e estudos sobre meio ambiente.
Mas não é apenas isso. Wilderness é algo extremamente relacionado com a preservação do espírito humano, da criatividade, da moral e da cultura. Isso é o que está presente na obra de diversos autores naturalistas. E eu devo admitir, concordo com eles.
Nesses ermos selvagens profundos eu encontro uma conexão com a vida, com a terra e com o meu interior tão grande quanto eu só encontrei no ventre de minha mãe. No silêncio, cercado pelo horizonte, seja ele composto de montanhas, florestas ou planícies, meus pensamentos e minha alma não tem para onde fugir. Não há nada para perturbar meu espírito que não eu mesmo e minhas necessidades. Só ouvirei os ecos vindos de dentro de mim, estabelecendo assim o diálogo mais verdadeiro de minha vida sem ser ouvido por ninguém - talvez pelas árvores, talvez pelas rochas.
Lembro-me do fascínio que me atingiu na primeira vez que ouvi essa palavra. Foi numa aula de América III. Rememorando agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, lembro-me que meus ossos congelaram e senti um frio intenso no peito. Descobri o nome daquilo que tanto me impressionava.
É uma constante na minha vida, certamente. Sempre procurarei por isso em meus escritos, em meus poemas, minhas viagens, minha respiração.
Deixo para meus leitores agora um poema de Lord Byron com o qual eu muito me identifico e que acredito expressar bem toda a mística dessa palavra.

Há nas matas cerradas um prazer,
Há nas encostas solitárias um arrebatamento,
Há uma sociedade, onde ninguém pode intrometer,
Pelo mar profundo, e música em seu lamento:
Eu não amo menos ao Homem, mas à Natureza mais,
Dessas nossas entrevistas, nas quais capturo,
De tudo que eu possa ser, ou tenha sido tempos atrás,
Para me misturar ao Universo, e sentir puro,
O que nunca posso expressar, ainda que não possa esconder.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"Você não pode impedir o que está por vir."


Dia 4 de novembro. Gostaria de deixar registrado um pensamento. É pouco racional, mas me fez torcer as sobrancelhas, como se o sol de um deserto estivesse sobre minhas vistas. É pouco coerente, mas me fez trincar os dentes por um momento, olhando para o céu azul sustentado pelo horizonte além dos muros da minha casa. É um pensamento duro.
Até que ponto eu tenho liberdade e capacidade de lutar contra o que me cerca e o que me compõe? Essa capacidade existe em mim a partir do momento em que eu creio nela ou existe no mundo, inerente à todas as pessoas? Até onde eu controlo meu destino?

Estes dias ouvi um velho dizer o seguinte: "Você não pode impedir o que está por vir."

domingo, 1 de novembro de 2009

Rio de Janeiro no Tempo


Estava fazendo uma leitura relativa à minha vida acadêmica, deitado na cama, bem relaxado. Lia o livro do Malerba, "A Corte no Exílio", e me espantei com a permanência de certas características da cidade. Problemas semelhantes, soluções semelhantes. Pelo menos para mim, observador dos dois mil. A cidade da Guanabara do início do século XIX é descrita como um lugar contraditório e caótico. Se por um lado temos uma cidade que tenta se europeizar à todo o custa, graças à presença da família real portuguesa, também temos uma cidade cheia de pretos e mestiços, vivendo ao seu modo, com suas capoeiragens, correrias, danças e músicas. Aos viajantes tudo era extremamente exótico. Gente de várias cores distribuída pelas ruas barulhentas. Brigas de capoeira, arruaças, lixo pela rua, gritarias, confusões, polícia correndo de um lado para o outro. Nas águas da baía, velas brancas desfraldadas enfeitavam o horizonte. No fundo da cena, uma belíssima cordilheira de montanhas. E as contradições reinando lá embaixo, entre as ruas da cidade maravilhosa. Caos e Ordem.
Me pareceu tudo muito familiar - guardadas as devidas peculiaridades e proporções. Hoje em dia vivemos num Rio de Janeiro que se mostra repleto de faustos, cidade da Copa, das Olimpiadas! Suas praias exalam beleza e calor, suas ruas pulsam na vida noturna e em tuas galerias corre a arte e a cultura. O mundo todo te olha como umbigo cultural latino-americano. No entanto, ainda moram em tuas ruas miseráveis, crianças sem lar. Ainda há lixo, bagunças e correrias, com a guarda municipal a correr atrás de pivetes e camelôs. É o choque de ordem. Teu povo ainda se vê refém do medo, não mais como no século XVIII, ameaçado pelas invasões francesas - e olha ai 2009, o ano da França no Brasil - mas sim da violência que ronda em tuas ruas. A tua baía, antes clara e povoada de golfinhos, hoje é escura, suja.
No entanto, não adianta, a tua vista ainda espanta os olhos dos viajantes, transeuntes e qualquer um que pare para te admirar!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um dia da Educação


Não há nada para comemorar hoje, dentro do que eu entendo como vitória. Nossa educação é uma derrota, frente ao que poderia e deveria ser. Somos uma nação que trata com descaso os seus pequenos e jovens. Escolas destruídas, sem comida para merenda, sem livros, com professores mal remunerados - esse é o retrato do futuro do Brasil. Porque o futuro é construído exatamente ali, dentro das salas de aula. Deixando tudo ao abandono, como fazemos hoje em dia - sim, como fazemos, pois todos somos responsáveis por isso e não apenas os nossos governantes - estamos enlameando o caminho pelo qual passaremos nos próximos anos. Estamos trocando crianças e jovens bem-alimentados e educados por menores abandonados e deliquentes juvenis. A sociedade tem que por a mão na consciência e prestar bem atenção no que está fazendo. Não só o voto, mas a cobrança também é ferramenta para a participação na política.
Eduardo Paes, esse que habita o gabinete de nossa prefeitura, inaugurou a primeira das unidades de um projeto chamado EDI(Espaço de Desenvolvimento Infantil). Consiste, basicamente numa creche integrada à pré-escola, com assistência às crianças, como alimentação e saúde. Sinceramente, é a mesma história que se repete à cada mandato diferente: um eleito vem e destrói o projeto do outro, não dando continuidade ao que já estava sendo feito. É como se quisessem aparecer e brandir um artefato mágico na frente do povo: Achei! Eureka! Foi nesse espírito que se encerrou o projeto de educação integral nas comunidades carentes, pensado por Darcy Ribeiro há décadas atrás.
Por outro lado, acho que um dia bonito como esse, 15 de outubro - tão pertinho do dia das crianças - deveria ser dedicado não apenas aos professores mas à todos os que trabalham para a construção de cidadãos conscientes: as secretárias, pedagogas, merendeiras, serventes, porteiros, todos os que trabalham na escola. Por que não, em vez de um dia do professor, um dia da Educação?